Campanha não VOLPagar


A seguir uma crônica do professor Cláudio Moreno, publicada ontem na Zero Hora. Procurei, mas pelo jeito o sistema de busca da página do jornal não é muito bom, e não consegui encontrar a "Não comprem o novo VOLP (1)". Grifei em vermelho o trecho em que ele nos lembra de nosso "ledo engano" ao pensar que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que registra a nova ortografia, modificada por uma lei cheia de lacunas, seria um documento de acesso gratuito.
Não comprem o novo VOLP (2)

O assunto da coluna anterior foi a estranhíssima pressa com que nossa Academia lançou o seu Vocabulário Ortográfico, elaborado por uma comissão que, além de não ter representatividade alguma no meio cultural e acadêmico, não inclui - afora seu presidente, Evanildo Bechara - nenhuma reconhecida autoridade em nosso idioma. Estranhíssima, por quê? - há de perguntar o leitor que está chegando agora ao baile; estranhíssima, digo eu, porque esta desastrada publicação veio implodir a própria essência do Acordo, que era (alguém ainda se lembra desta peta?) a unificação da Língua Portuguesa, aquele sonho celestial que atraiu muita gente de boa fé, tanto aqui quanto além-mar! Ébrios de tanta utopia, os neoconvertidos já enxergavam, ao longe, a luz celestial do futuro prometido: o Português seria finalmente unificado em todos os países lusófonos, aumentando assim o seu poder político e conquistando o direito de ingressar no elenco das línguas oficiais da ONU; os livros editados aqui seriam vendidos na África, os livros editados na África seriam vendidos aqui, e em Portugal, e em qualquer outro rincão debaixo do sol em que se fale o idioma de Camões. Os que se opunham ao Acordo e o chamavam de inútil e fantasioso eram apedrejados pela multidão, acusados de “retrógrados”, “conservadores” e “colonialistas”, entre outras pérolas. Era inútil; repetia-se, com a devida alteração, o maroto dito popular: água morro abaixo, fogo morro acima e tolo que quer se iludir, ninguém há de segurar...

Pois não é que a Academia Brasileira de Letras, sem tir-te nem guar-te, decidiu publicar um Vocabulário Ortográfico sem consultar ou ouvir os demais países interessados? Mas como? Não deveria ser um esforço comum? Não íamos todos dar as mãos para um mundo melhor, como recomendam as redações escolares? Pois não foi o que se viu. As autoridades brasileiras que se manifestaram quando o Vocabulário foi concluído quase não podiam conter o seu ufanismo: nada mais natural que tivéssemos saído na frente! Afinal, mais de 80% dos 230 milhões de falantes do Português vivem aqui na Pindorama, o que autoriza o Brasil a ser o puxador da escola de samba, a locomotiva do comboio, a São Paulo do mundo lusófono; non ducor, duco (“não sou conduzido, conduzo”), dizia, em Latim, o lema fascista cunhado por D’Annunzio. (Ao que eu, com meu habitual espírito de porco, poderia redarguir: mas a levar adiante esse raciocínio de brucutu - manda quem tiver o porrete maior -, por que não obrigamos, simplesmente, os demais países a escrever como nós temos feito desde 1943? Seria bem mais simples e mais barato - para nós!)

Quando um jornalista perguntou se este VOLP isolado não se chocava frontalmente contra o espírito do Acordo, o professor Bechara simplesmente respondeu que os demais países deviam fazer o mesmo e lançar cada um o seu - o que resultaria, se chegasse a ser feito, em sete vocabulários ortográficos diferentes. Ou seja, não só deixaria de haver a propalada unificação (era só uma bravata de campanha, não veem?), como ficaria ainda muito pior do que estávamos até o ano passado; haveria sete maneiras diferentes de grafar nossas palavras! E o Brasil todo - as universidades, os especialistas e, principalmente, a imprensa - aceitou que lhe enfiassem goela abaixo (ou por outra via...) este absurdo quase sem gemer! Aqui e ali alguma voz isolada denunciou o disparate cometido, mas, com um fatalismo bocó, a maioria dos brasileiros deu o fato como consumado e passou a se preocupar apenas em aprender a escrever novamente. Surgiram livrinhos oportunistas explicando o novo sistema, os jornais publicaram guias práticos e resumidos, organizaram-se cursos-relâmpago sobre o tema - tudo para permitir que nosso falante pudesse experimentar o prazer da nova ortografia sem sentir muita dor. Vários pontos do Acordo ainda estavam obscuros, mas os seus sacerdotes insistiam no mesmo mantra: o VOLP virá; ELE deixará tudo mais claro.

Pois ELE veio. Nova e desagradável surpresa: o VOLP, a bíblia da ortografia vigente no País, não é oferecido on-line, como deveria, para consulta de todos os fiéis. Mas o que você queria, ingênuo leitor? Acesso gratuito? Está pensando que isso é obra de benemerência? Afinal, o senhor é contra o empreendedorismo? Quer arruinar os que investiram tanto tempo e esforço para montar este esquema? O senhor tem alguma coisa contra o lucro? É anarquista? É bolchevique? Quer que Moisés mostre as Tábuas da Lei sem ganhar algum? Ledo engano, caro amigo. Vá preparando a carteira, que você vai gastar R$ 120,00 (fica por cem, com chorinho) para ingressar neste recinto - e muito mais nos calmantes que vai ter de tomar quando perceber que comprou fruta bichada. Mas isso eu explico depois.

Diálogo com a Academia


Recuso-me a comprar a nova edição do Volp. Como professora devo me manter atualizada sobre a disciplina que leciono, língua portuguesa, mas não tenho a obrigação de gastar R$ 120 reais em um documento que deveria ser de livre acesso a todo cidadão brasileiro. Se as mudança ortográfica é uma lei imposta de cima e se a documentação que resulta desta lei é o Volp, cabe ao cidadão ter de pagar por este documento?

No site da Academia Brasileira de Letras, há a seguinte observação:
Observação: esta versão digital ainda não foi atualizada conforme a nova ortografia em vigor. No momento, a Academia Brasileira de Letras desenvolve um nova versão do VOLP e, em breve, ela estará disponível nesta seção para consulta.
A fim de entender melhor este "em breve", escrevi para a Academia, por meio do serviço de perguntas e respostas. A seguir a troca de e-mails:
Pergunta : Prezados, Gostaria de saber por que ainda não foi disponibilizada a versão on-line da nova edição do Volp. A falta do novo Volp em escolas e na internet (serão enviados exemplares para as escolas públicas de todo o Brasil?) está prejudicando meu trabalho como professora de língua portuguesa e como uma das cidadãs responsáveis pela efetiva implementação das novas regras ortográficas (especialmente quanto ao uso dos hífens). Creio que todos os cidadãos têm direito de conhecer as novas regras, e o texto do acordo não é suficiente para defini-las. Os professores de língua portuguesa, mais ainda, merecem ter livre acesso a elas por meio do Volp impresso ou on-line.
Atenciosamente, Fabiana Cardoso Fidelis
Resposta : O VOLP já está à venda nas livrarias. Para a versão digital, ainda não temos previsão.
Pensei que estivesse claro que eu sabia que o Volp está à venda nas livrarias. Precisava ter dito que o valor de R$ 120,00 para a compra não é exatamente o que se chama de acesso livre a um documento?
2ª. pergunta : Quais são os impedimentos técnicos de disponibilizar uma versão em PDF da nova edição do Volp ou a consulta das palavras no site da Academia? Qual a previsão e programação de distribuir a versão impressa da nova edição do Volp às escolas públicas brasileiras?
Atenciosamente, Fabiana Cardoso Fidelis
Resposta : Sua pergunta não é sobre dúvidas de língua portuguesa e foge aos objetivos deste serviço.
Então resolvi perguntar sobre todas as dúvidas referentes ao uso do hífen. Pretendo fazer mais ou menos uma pergunta por dia. Aqui a primeira delas:
3ª. pergunta : Li na imprensa declarações de Evanildo Bechara de que a palavra "abrupto" deveria ser grafada preferencialmente com hífen: "ab-rupto". Não econtrei no texto do Acordo Ortográfico de 2009 a explicação que justifique este hífen. Poderiam me indicar qual é a justificativa? Obrigada, Fabiana

Resposta :
Emprega-se o hífen quando o 1.º elemento termina por b (ab-, ob-, sob- e sub-) ou d (ad-) e o 2.º elemento começa por r: ab-rupto, ob-rogar, sob-roda, sub-reitor, sub-réptil, sub-rogar; ad-referendar, ad-renal. A forma ab-rupto é preferível a abrupto (sem hífen). Extraído do livro A Nova Ortografia, de Evanildo Bechara, Ed. Nova Fronteira, 2008, Base XVI, p. 102.
Detalhe: na Base XVI do Acordo (voltei a reler) não há absolutamente nada que fale de primeiro elemento terminado em “b” e de segundo elemento iniciado por “r”. Pelo jeito, além do Volp, querem me obrigar a comprar o livro do Sr. Bechara.

Escrevi para o MEC agora. Vamos ver se respondem.

Caminhando na feira


Além de levar os alunos do ensino médio para a Feira do Livro, com duas turmas fiz um trabalho de leitura dos livros de Charles Kiefer. Os alunos fizeram uma vaquinha, compramos livros do autor na Estante Virtual, que circularam entre eles e no dia da palestra foram sorteados para que os contemplados pedissem um autógrafo do escritor. Lemos “Caminhando na chuva” em aula (alguns capítulos eu lia em voz alta; outros, eles liam sozinhos) – na aula seguinte, antes das “cenas do próximo capítulo”, um grupo de alunos fazia algum tipo de apresentação para relembrar o capítulo anterior.

Depois da palestra de Charles Kiefer e da ida à Feira, solicitei a redação de um parágrafo ou de um texto comentando a participação na Feira. Podiam escrever também sobre a importância das bibliotecas públicas (o tema principal da palestra foi a importância da leitura e das bibliotecas, o que frustrou um pouco os alunos, já que esperavam ouvir sobre os livros do autor e sobre sua experiência como escritor).

Os alunos criticaram a pouca variedade dos livros da Feira e os preços altos, mas a apreciação foi em geral positiva. A seguir transcrevo alguns textos, escolhidos para serem colocados num mural na escola, para divulgar os resultados da participação e estimular uma maior participação da escola no próximo ano.

A XXIV Feira do Livro de Bento Gonçalves proporcionou um momento de interação entre estudantes do Ensino Médio com o autor Charles Kiefer. Esse momento fez com que os alunos pudessem demonstrar seus talentos, afinal o evento é um incentivo à cultura.
A palestra abordou os mais diversos assuntos, mas o que mais chamou a atenção foi que o autor tem uma vivência política muito intensa. Normalmente as pessoas acham que literatura não envolve política, que é apenas um meio por onde os escritores manifestam suas emoções, mas isso é muito mais complexo, pois literatura abrange os mais diversos setores, inclusive a política.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

Não sei bem como para mim seria chegar na frente de tantas pessoas como havia naquela manhã e falar tão bem sobre tantos assuntos interessantes e importantes como Charles Kiefer fez. E posso afirmar que o fez muito bem. Acredito que seja quase impossível segurar por tanto tempo a atenção de tantos jovens adolescentes para falar de literatura em geral. Ele foi sensacional.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

No dia 19 de maio, tivemos a oportunidade de comparecer a uma palestra proferida pelo escritor Charles Kiefer, autor de vários livros, entre os cais destaco o livro “Caminhando na chuva”. Durante a palestra, houve um envolvimento entre escritor e participantes, e na sua explanação soubemos que em toda a América Latina a cidade que mais lê é a gaúcha Morro Reuter.
Ele falou de suas viagens pelo mundo e destacou aquela que fez aos Estados Unidos, onde observou que lá existem bibliotecas públicas com mais de 250 mil exemplares de livros em seus acervos. Em outra de suas viagens, desta vez de trem, ele e um amigo resolvem beber uma cerveja. Entre um vagão e outro, observam que, em cada dez tripulantes, oito deles estavam lendo.
Percebe-se que em países desenvolvidos há um incentivo muito grande por parte de seus governos para as pessoas lerem e se atualizarem. Já o povo brasileiro não possui o hábito de leitura, devido a vários fatores, entre eles o alto custo dos livros. Nota-se, também, que em nossas escolas públicas estaduais a maioria de suas bibliotecas continuam com suas portas fechadas, impossibilitando seus alunos de se habituarem com o gosto da leitura e, com isso, fazendo cada vez mais que se desinteressem pela leitura.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

A Feira do Livro é um grande ponto de encontro de vários escritores, onde você pode encontrar uma grande variedade de livros e ver algumas palestras e peças teatrais. Eu não tive muitas oportunidades de visitar a Feira do Livro, mas, quando fui, achei muito interessante, boa, com ótimos livros que os faziam ficar olhando e admirando. Eu não comprei nenhum, mas ganhei um do escritor Charles Kiefer.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

A palestra do escritor Charles Kiefer foi muito interessante. Ele falou sobre suas aventuras na infância, na adolescência, como ele começou o namoro com a sua primeira esposa...
O escritor mostrou-se bastante viajado. Falou sobre suas viagens, sobre como é vista a literatura nos outros países.
Também expressou sua opinião sobre a literatura no Brasil. Criticou os governantes que não compram livros para as escolas, que não fazem novas bibliotecas e nem reformam as existentes.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

A palestra de Charles Kiefer foi boa. Achei interessante a história da vida dele. Mas ele não falou muito dos seus livros. Ele abordou bastante a importância da leitura e falou sobre as bibliotecas fechadas em escolas.
Ele disse que a leitura é muito importante. Segundo ele, o Rio Grande do Sul compra muitos livros, mas o hábito de leitura não é muito grande.
O assunto das bibliotecas fechadas em escolas gerou polêmica e bastantes comentários. O autor Charles Kiefer ficou indignado com as bibliotecas fechadas. Como os alunos podem ficar sem livros e sem leitura?
Ele contou que na Europa e EUA há bibliotecas gigantes esperando pelos alunos.
Turma de Informática Integrado – 1º. ano.

Fomos, no dia 19 de maio de 2009, para a XXIV Feira do Livro de Bento Gonçalves. Nessa manhã recebemos muitas informações sobre o autor Charles Kiefer em sua palestra. Ele nos contou um pouco sobre sua vida e sobre o livro que nós lemos (Caminhando na chuva). Ele falou pouco sobre sua vida de autor e suas obras e mais sobre a política do Brasil e do Rio Grande do Sul.
A Feira é um evento muito importante, pois incentiva cada vez mais pessoas, de todas as idades, a se apaixonarem pela leitura.
Turma de Zootecnia, 2º. ano

A leitura é fundamental para todas as pessoas, principalmente para a formação do caráter de cada um. Com a leitura as pessoas ganham muito conhecimento, aprendem a falar melhor, a ter mais educação um monte de outras coisas que são fundamentais para o aprendizado de todos nós.
Muitas pessoas, quando chegam a uma certa idade, percebem que deveriam ter lido mais quando jovens, porque quando se é estudante temos mais é que aproveitar nosso tempo livre para ler bons livros e não sentir falta disso quando chegarmos em uma certa idade.
As pessoas que gostam de ler muitas vezes encontram obstáculos para conseguir um livro. Muitas bibliotecas estão fechadas no atual governo estadual; também há muitas cidades que não têm bibliotecas e às vezes elas estão muito longe das pessoas que necessitam ler.
Então podemos concluir que a leitura é muito importante para todos nós, mas devem ser feitas muitas melhorias para a leitura chegar a todos.
Turma de Zootecnia, 2º. ano

Quando chegamos na Feira, eu não estava muito animado, pois não sou muito fã de livros e leitura. Mas acho que estava errado. Ao longo da Feira percebi o quanto é bom ler, porque deixa uma pessoa feliz. Havia crianças, idosos, diversos tipos de pessoas que estavam se divertindo, comprando muitos livros. Teatros eram apresentados e era muito divertido – parecia que o livro dava ânimo aos desanimados. Percebi que ler é bom demais, me deixa mais feliz para o amanhã e, além do conhecimento, ganho alegria. Amei a XXIV Feira do Livro de 2009. Tomara que muitos tenham gostado.
Turma de Zootecnia, 2º. ano

Quando chegamos à palestra, Charles Kiefer ainda nem havia sido apresentado. Após subir ao palco e falar, tive dele uma impressão ruim, parecia um pouco fechadão e arrogante, com cara de poucos amigos. Aos poucos foi mudando, e com o andar da conversa ele esbanjou conhecimento. O que mais me chamou a atenção foi sua experiência em outros países, principalmente quando falou do museu nos Estados Unidos. Também achei interessante a posição dele em relação à política e à importância dos livros.
Turma de Zootecnia, 2º. ano

Na XXIV Feira do Livro de Bento Gonçalves pude observar que os livros estavam caros, mas, em geral, a estrutura estava boa e o espaço agradável. A palestra de Charles Kiefer foi boa e foram contadas várias experiências do autor, que sugeriu também novos autores bons para nossa idade. Enfim, a palestra e a Feira estavam boas.
Turma de Zootecnia, 2º. ano



Antitabagismo


Sábado próximo é o dia mundial contra o tabaco. Aqui na escola haverá uma palestra sobre tabagismo na sexta-feira. Há cartazes por toda a escola lembrando os malefícios do cigarro. Servem para lembrar a quem não fuma e corre o risco de “cair na burrice” de experimentar e gostar. Porque se não desse algum tipo de prazer imediato, não haveria tanta gente se envenenando por aí conscientemente.

Hoje foi mais um dia de retiradas de livros na biblioteca pública Entre eles, “É foch!”, do Nei Lisboa, que já terminei de ler. Crônicas publicadas no jornal “Extra Classe” ou na Zero Hora de 2000 a 2005. Bom para relembrar inúmeros eventos do início deste milênio. São bem escritas, leves e atrativas.

Há três crônicas sobre quando ele tentava parar de fumar e logo pensei que poderiam ser divulgadas na sensibilização para o evento de sexta-feira na escola. Só há um porém: não são os típicos textos que se usam nestas ocasiões – sobre quanto o cigarro é prejudicial à saúde. Porque bem escritas são ambíguas e condenam o cigarro sem dar sermão.

Em “Um parágrafo, duas bananas”, Nei ironiza as suas decisões de parar de beber e de fumar, desfiando várias decisões politicamente corretas e um tanto quanto impossíveis de serem cumpridas que igualmente tomaria. No final da lista de decisões, se vê com um cigarro aceso na mão..., além de deixar bem claro que terá dificuldades para ter ideias sem um pouco de fumaça no cérebro. Em “Já volto”, discorre sobre como o Butão foi o primeiro país do mundo a proibir a venda e o consumo público de tabaco – deixa suspenso nas entrelinhas o mérito e o despotismo da decisão. Em “Parece mas não é”, se isenta de ser um chato ex-fumante que exorciza o vício e admite gostar do “cheirinho” do cigarro. Mas, diz ele, agora é outro – e aquele que era, que fumava, não tinha “um cheirinho” – fedia: “Era, sim, uma nuvem de fumaça que estava sempre ao meu redor, impregnando a minha casa, as minhas relações, o meu bem-estar, a minha felicidade.”

De qualquer forma, fiz cópia das crônicas e as entreguei para a coordenadora pedagógica. Vamos ver se vão parar nos cartazes de divulgação e conscientização.

Tese


Hoje na hora do almoço, conversa de doutorandos sobre dedicar-se à escrita da tese.

Um deles tem que escrever um artigo semestral em inglês, apresentá-lo em um congresso ou a uma banca do curso e depois transformar todos os artigos na tese, redigida também em inglês. O outro vai usar as férias para escrever pela manhã e tarde e qualificar em setembro – defender até o meio do ano que vem – uma página de escrita por dia, disse o orientador dele. Não importa se trabalha demais, se está num emprego novo. Eu fiquei quieta – na verdade, já me contentaria com alguns parágrafos por dia e é o que me propus a fazer desde ontem.

“Um trabalho que ficará para a eternidade”, diz um dos doutorandos da mesa. Queria eu acreditar tanto assim nas teses e na minha futura tese. Talvez eu não acredite mais no processo de fazer a tese do que na tese em si – processo esse que não quero que se torne semelhante à situação tragicômica narrada por Mário Prata:


Uma tese é uma tese
Mário Prata


Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese.

Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha.

Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.

Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma
versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza.

Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.

Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.

- O quê? Pirou?

- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má idéia!

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?

Acho que seria um tesão.

Crônica publicada no jornal O Estado de Sao Paulo, 7 out. 1998.

R$ 5,50


Eu tenho comprado livros apenas na Estante Virtual, mas nada como sentir a atração dos livros que querem pular para a nossa sacola, principalmente se não forem caros.

Das três vezes em que fui com os alunos na Feira do Livro, apenas na última consegui esquecer minha responsabilidade de supervisora e me enveredar nas bancas. O resultado foram duas sacolas:

  • Contos, de Machado de Assis (Paz e Terra) – R$ 3,00
  • Antologia de contos populares, organizado por Marô Barbieri - R$ 3,00 (Marô Barbiere foi a patrona da Feira do Livro neste ano – infelizmente não cheguei a conhecê-la).
  • Dois irmãos, de Milton Hatoum – R$ 19,50, com desconto de 15% (obra indicada para o vestibular da UFRGS, que ainda não li).
  • Os dentes da galinha, de Stephen Jay Gould (na hora pensei que fosse ficção científica, mas é divulgação científica, e o autor é um conhecido darwinista até debaixo d’água. No primeiro texto, uma extensa explicação sobre por que os machos são maiores nos mamíferos e menores em outras classes).
  • Um Porto Alegre: crônicas, de Tabajara Ruas - R$ 3,00 (a crônica que dá título ao livro é sobre quando ele ganhou a Medalha de Porto Alegre).
  • Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe – R$ 20,00, com desconto de 15% (para eu ler “O gato preto" para os alunos mais uma infinidade de vezes).
  • Jack Nicholson: o curinga louco, de Jonh Parker - R$ 3,00 (acho que não vou ter paciência de ler – não parece acrescentar muito ao que se pode ler a respeito na internet).
  • Palavras ao sul: seis escritores latino-americanos contemporâneos, organizado por Maria Antonieta Pereira e Luis Alberto Brandão Santos - R$ 7,00 (gostei do formato: uma entrevista com o autor, um ensaio crítico sobre a obra e um texto do próprio autor – deixar a literatura falar por si é tão importante quanto falar de literatura).
  • Rima e solução: a poesia nonsense de Lewis Carroll e Edward Lear, Myrian Ávila - R$ 3,00 (é a tese de doutorado da autora, que foi minha professora no curso de especialização em Literatura e Ensino, na Unochapecó).
  • Antígona, de Sófocles - R$ 3,00 (tradução de Millôr Fernandes, publicada pela Paz e Terra).
  • O vôo da madrugada, de Sérgio Sant’anna - R$ 5,00 (os alunos do terceiro ano se interessaram muito pelos trechos picantes...).
  • Noite na taverna, de Álvaros de Azevedo - R$ 3,00 (uma edição razoável até).
  • Cinco clássicos do período do Romantismo, numa edição barata de R$ 3,00 (capas tão horríveis que chegam a dar medo. Comprei só para ter em mãos, pois preciso trabalhá-los com os alunos do segundo ano).
Total: R$ 88,00 por 16 livros. Somando e dividindo, o preço médio de cada um fica em R$ 5,50 – uma refeição barata. Se os livros normalmente tivessem esse preço, seria mais fácil alimentar a alma.

Antígona, traduzida por Millôr


Hoje li Antígona, um dos livros que comprei em um balaio na Feira. Gostei da tradução de Millôr Fernandes – a linguagem é leve e próxima a de nossos dias.

Mesmo reconhecendo uma linguagem simples, estranhei a palavra “mocinha” na fala do guarda que prende Antígona:

“Quando, enfim, passou a tempestade, esfregamos os olhos e vimos essa mocinha aí, soltando gritos de horror e angústia como um pássaro desesperado por perder os filhotes.” (Paz e Terra, 2005, p. 24).

O mesmo trecho, muito mais formal, com a palavra “jovem”:
“Todo o céu escureceu; e nós com os olhos cerrados, esperamos o fim desse flagelo divino. Quando ele cessou, vimos esta jovem; ela soltava gritos agudos, como um pássaro desesperado ao ver desaparecidos os filhos do ninho deserto.” (Tradução de J.B. Mello e Souza, pelos Clássicos Jackson).

Além disso, chamou-me a atenção a verdade da seguinte máxima, que, suponho, seja citada e estudada em direito e política:
“Mas não se conhece verdadeiramente um homem, sua alma, sentimentos e intenções, senão quando ele administra o poder e executa as leis.” (Paz e Terra, 2005, p. 13).

Sobre esta frase, em uma nota das edições Jackson há o seguinte:
“Tal máxima é atribuída a Bias: 'O exercício do poder põe o homem a prova'."

Em tempos de democracia, quando votamos em inúmeros cargos, de síndico a chefe do cafezinho, sempre observo como os discursos e ações mudam antes e depois de eleições. Faz algum tempo que prometi a mim mesma não usar meu voto para eleger qualquer pessoa, nem mesmo a mim, mas sempre fico pensando que talvez seja diferente com tais e tais candidatos...

Feira e biblioteca



A prefeitura e a biblioteca pública estão de parabéns pela XXIV Feira do livro de Bento Gonçalves. Levei todas as turmas de alunos do ensino médio para as quais ministro língua portuguesa e literatura. Com duas delas fiz um trabalho prévio com as obras de Charles Kiefer. Assistimos a uma palestra, pedimos autógrafos e visitamos a feira. Com as demais participei de palestras e atividades.

Infelizmente, não consegui aproveitar tudo da extensa programação – perdi, por exemplo, Vítor Ramil, que falou sobre a estética do frio, mas ouvi Nei Lisboa, cuja produção literária desconheço, que alegrou os assistentes submetendo-se a uma palhinha com um violão emprestado e cantou “Por aí”. Não vi a Jane Tutikian, que, na mesma noite do Vitor Ramil, deu um palestra no congresso de Língua e Literatura na UCS – foi quinta-feira passada, e eu precisei ficar mais um turno na escola, à noite, elaborando duas avaliações para o dia seguinte. Já a palestra do Assis Brasil foi numa manhã em que ministro aulas.

Além desta oportunidade de contato com livros fresquinhos na feira, ando felicíssima porque, pela primeira vez na vida, moro próximo de uma biblioteca pública municipal, e, ainda por cima, uma ótima biblioteca. Normalmente escolhemos nossos lugares de moradia valorizando o fácil acesso a serviços como transporte público, táxi, supermercado, farmácia, mas quem pensa no valor de ter uma biblioteca a algumas quadras? Isso nunca tinha me ocorrido.

Na zona rural, onde vivi até os dez anos,não havia biblioteca nem na escola estadual em que estudava; em Gravataí, a biblioteca ficava no centro da cidade, e eu morava em um bairro; em Porto Alegre, bem no centro, e eu também morava em um bairro; em Chapecó, eu não morava muito longe da biblioteca (umas dez quadras talvez), mas coro ao confessar que nunca a visitei – e não foi por falta de vontade... Não cheguei a conhecer a biblioteca e nunca cheguei a ter certeza quanto a qual prédio estava instalada – passei cinco anos pensando em visitá-la ou levar os alunos para conhecê-la, mas me vinha à mente um lugar com funcionários públicos antipáticos e um monte de livros desinteressantes. Preciso mesmo voltar a Chapecó para visitar a biblioteca e, é claro, algumas saudades que deixei por lá.

Bom, agora moro a três quadras de uma linda biblioteca, cheia de espaços para a leitura e de livros novíssimos, saídos dos últimos lançamentos. Não faz um mês que me associei. Meus primeiros empréstimos:

  • “Sem rumo”, de Cyro Martins (porque não consegui “Porteira fechada”, que está com uma fila de reservas, já que é obra do vestibular da UFRGS);
  • “O opositor”, do Luis Fernando Verissimo, da coleção 5 dedos de prosa (divulguei para os alunos do terceiro ano e ao que parece gostaram do groggh da índia)
  • “Stevenson sob as palmeiras”, de Alberto Manguel, cuja capa, da Companhia das Letras, é linda (estou gostando especialmente das partes em que há metanarrativa, mas não consigo evoluir muito na leitura);
  • “Na noite do ventre, o diamante”, de Moacyr Scliar, também da coleção 5 dedos de prosa (estava a ponto de desistir pelo caráter didático e enrolativo de uma das partes iniciais do livro, mas melhorou bastante depois da página 60);
  • “A casa da esquina”, de Duca Leindecker, que foi uma doce surpresa, pois não sabia que ele escrevia. Em primeira pessoa, é uma novela quase infanto-juvenil recheada de poesia. Estava terminando o trabalho com “Caminhando na chuva”, de Charles Kiefer, e me chamou a atenção como os dois textos comovem pela singeleza e pela memória da infância feliz pela ingenuidade.
Amanhã, mais Feira – levo duas turmas para a palestra com Airton Ortiz, que foi patrono da feira do ano passado. Não o conheço, mas deve ter coisas interessantes para falar quem fez pequenas viagens até o Tibet, a Índia, a África, todos lugares ali pertinho...