A primeira frase

Normalmente passamos tão rápido pela primeira frase de um romance que nem prestamos atenção nela. Lendo uma reportagem da revista Língua sobre os tormentos da página em branco, o conselho é não comparar nossas primeiras linhas à, por exemplo, primeira linha de Kafka em “A metamorfose”. Ficaríamos paralisados. Além disso, a definitiva primeira frase de qualquer texto toma forma quase sempre no final, e o que é a primeira na página em branco tende a sumir ou se transformar em outra coisa. (Este fenômeno ocorreu agora mesmo neste post, cuja primeira frase era: “A primeira frase de um livro não é a mais importante.”)

Além da frase de Kafka, “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.”, são citadas mais algumas na reportagem: “Chamam-me Ishmael.”, de Melville em Moby Dick, “Um grito atravessou o céu.”, de Thomas Pynchon, e “A tristeza, a incompreensão e a desigualdade de nível mental do meu núcleo familiar, agiram sobre mim de modo curioso: deram-me anseios de inteligência.”, De Lima Barreto em Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

Selecionei algumas de romances que tenho arquivados no computador. É um bom desafio enciclopédico tentar descobrir de quais romances foram retiradas.

Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa.

As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas.

Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde eu nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield, mas, para dizer a verdade, não estou com vontade de falar sobre isso.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.

Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa - e qual defesa seria mais legítima? - logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

Era no tempo do rei.

Juntei cuidadosamente tudo quanto me foi possível recolher a respeito do pobre Werther, e aqui vos ofereço, certo de que mo agradecereis.

RUBIÃO fitava a enseada, - eram oito horas da manhã.

Todas as famílias felizes se parecem, as infelizes não.

Durante a Guerra de Secessão dos Estados Unidos, um novo clube muito influente fundou-se na Cidade de Baltimore, no Estado de Maryland.

3 de maio. Bistritz - Parti de Munique às 8,35 da noite e cheguei a Viena na manhã seguinte, muito cedo; devia ter chegado às 6,46, mas o trem estava atrasado uma hora.

Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia.

Achando-me, dias atrás, de regresso da Itália à Inglaterra, a fim de não gastar todo o tempo da viagem em insípidas fábulas, preferi recrear-me, ora volvendo o espírito aos nossos comuns estudos, ora recordando os doutíssimos e ao mesmo tempo dulcíssimos amigos que deixara ao partir.

O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas.

O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey.

Há muito, muito tempo, depois da queda do Império Romano, mas antes da coroação de Carlos Magno como imperador do Ocidente, reinava na Cornualha o rei Marcos.

O ano de 1866 foi assinalado por um acontecimento estranho.

Em 1872, a casa de número 7 da Saville Row, Burlington Gardens — casa em que Sheridan morrera em 1814 — era habitada por Phileas Fogg, esquire, um dos membros mais singulares e destacados do Reform Club de Londres, apesar de todo seu esforço em evitar, segundo parecia, chamar a atenção sobre si.

No principio do mês de abril de 1813, houve um domingo cuja manhã prometia um desses dias radiosos em que os parisienses vêem, pela primeira vez no ano, as ruas sem lama e os céus sem nuvem.

Para ler e ver

Já que não escrevi nada hoje, vou pelo menos postar uma dica de blog:
Frases ilustradas por Ceó Pontual.

A cada dia uma frase curiosa ou atraente e uma doce ilustração.

A luva ou o anel

Embora cada dia tenha uma série de decisões, fazia tempo que não me deparava com uma tão difícil: enfrentar o frio de Bento Gonçalves ou ficar numa cidade maravilhosa e sedutora como Florianópolis. Se o fator determinante fosse apenas esse, seria bem fácil. Apesar de a minha colega Carol se queixar de que não consegue dormir por causa do calor, o clima da ilha é muito bom, com chuva e tudo. Mas, muito mais que o tempo, o clima da forma como se vive a vida é que faz a diferença. Dizem que é por causa do mar, que só vê-lo já acalma, ou por causa da cultura açoriana. Independentemente da razão, as pessoas parecem viver de forma muito mais leve na ilha, comparando a Chapecó e Porto Alegre, cidades onde morei. São simpáticas. Cumprimentam na rua. Conversam. Sorriem.

“Como tu veio de Florianópolis para cá?” É a pergunta que mais ouço em Bento Gonçalves, para onde me mudei no início de janeiro. É uma resposta difícil, que envolveu uma decisão rápida, com inúmeros fatores pesados numa balança racional e emocional. Os dois lados sempre davam iguais. Tive de decidir entre duas coisas boas e positivas. Dois bons empregos, duas boas cidades (aliás, só depois de estar morando aqui em Bento é que vi como a cidade é atraente e cheia de serviços). A luva ou o anel eram adequados e igualmente bonitos.

Na balança, pendendo de um lado para outro, a escolha entre as duas profissões foi a mais difícil: professora ou revisora de textos.

Aparentemente gosto mais de ser revisora, pois o nível de stress é bem menor. Embora ame revisar textos, receei que exercer a profissão 8h por dia a longo prazo, com gêneros de textos muito parecidos, pudesse ser um pouco entediante. Cada texto é um desafio e exige do revisor a necessidade de pesquisar para tomar decisões, o que faz a atividade envolver aprendizagem e atualização constante; mesmo assim, há pouca margem para flexibilidade e criação no dia-a-dia. Além disso, o doutorado que estou fazendo, em Literatura, é completamente dispensável para ser revisora na área técnica rural (estava trabalhando na Epagri em SC) – e avaliei que seria muito difícil escrever uma tese tendo o trabalho e o estudo quase totalmente desconectados.Por fim, morar mais próximo da minha família e namorado inclinaram a balança, apesar de as distâncias serem muito relativas (de avião de Florianópolis a Porto Alegre se leva o mesmo tempo que de Bento Gonçalves a Porto Alegre de ônibus).

O tempo não dirá qual foi seria a melhor decisão, pois cada caminho implica suas consequencias. Se eu quisesse me arrepender, teria motivos com cada uma das escolhas; se eu quiser ficar feliz, também. A escolha mais importante que posso fazer, então, é curtir as inúmeras vantagens que tenho de ter escolhido vir para Bento Gonçalves trabalhar como professora de língua portuguesa e literatura no recentemente criado IFRS.

Ou isto ou aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

Língua portuguesa na hora do almoço

No Jornal do Almoço há dicas da nova grafia todos os dias. Se houve um mérito da mudança na ortografia da língua portuguesa, foi o de dar mais visibilidade às questões de linguagem. Entrevistam-se professores de língua portuguesa o tempo todo, e as mais diversas opiniões são dadas sobre como escrever ou deixar de escrever conforme o novo acordo. A favor ou contra a suas existência, agora alguns correm atrás de aprender a escrever conforme as novas regras, e a imprensa explora a possibilidade de informar os telespectadores a respeito. Maravilha!

Ninguém vai, contudo, aprender a escrever corretamente, seja na forma antiga ou na forma atual, apenas assistindo às dicas do JA. Para começar, apesar de ser fundamental que um texto tenha a grafia correta, não é suficiente para que ele seja bem-escrito. Pode-se ter uma grafia impecável e um texto truncado, confuso e mal-redigido. Além disso, só conseguiremos aprender as regras da nova grafia se nos dispusermos a usá-las em nossos textos e, para isso, é importante que escrevamos e tenhamos dúvida sobre as palavras, consultando um guia da nova ortografia quando tivermos dúvida. Aliás, é uma pena que a Academia Brasileira não tenha conseguido, em dez anos de trâmite para a aprovação do NÃO, preparar e publicar um novo VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa). Seria bem mais fácil se pudéssemos consultar a nova grafia, principalmente as palavras que têm hífen.

Eu mesma comecei a escrever mais regularmente semana passada e só agora me dou conta da efetiva necessidade de atualizar as regras. Em dezembro de 2008, já tinha feito algumas revisões aplicando as novas regras, mas só agora, quando preciso escrever textos no trabalho ou para serem lidos no blog, é que estou de fato me preocupando com deixar os tremas de lado, avaliar o uso dos hífens e tirar alguns acentos.

Várias instituições têm oferecido cursos de capacitação aos funcionários para a atualização quanto às novas regras. O bom é que em função disso as pessoas, se quiserem realmente a nova grafia, terão de aprender a antiga. Quando alguém me pergunta sobre as novas regras de acentuação e do hífen, costumo perguntar sobre o que a pessoa sabe sobre as regras antigas. Geralmente citam-se oxítonas, paroxítonas, proparoxítonas, mas raramente são conhecidas todas ou partes das regras. Tudo bem. Havia dicionários para consultar se a pessoa queria escrever corretamente. Mas agora não há mais – não em relação a alguns acentos nem às palavras com hífen. Então é melhor tentar aprender.

A preocupação com a grafia é ótima. Tomara que se estenda à estrutura do texto e aos sentidos que ele veicula, à regência e à pontuação. E tomara que a preocupação se torne efetivo ler e escrever mais e melhor.

Encontrei esta entrevista com o professor Cláudio Moreno, de quem sou fã. E aqui o site dele: Sua língua .

Perder tempo

Há três dias estou mexendo neste blog. Não foi muito difícil montá-lo, mas tive de despender algum tempo. Tenho de elaborar planos de ensino para as aulas que começam em menos de duas semanas e aparentemente estou perdendo tempo com um blog, mas tento me convencer de que ele é um dos meus principais instrumentos e métodos de ensino: escrever e ler. Como professora de língua portuguesa me coloco na situação de escrever textos que não sejam os documentos inerentes ao meu trabalho (planos de ensino, avaliações, relatórios ou artigos) e neste processo de vivenciar as dificuldades e fascínio de juntar palavras e ideias sou professora de mim mesma antes de ser de meus alunos.

Os professores de língua portuguesa geralmente ensinam um pouco de tudo, menos a escrever e a ler; por isso não precisam eles mesmos saber escrever nem ser leitores.

O professor que se molha

Ontem fiz minha primeira aula de natação em Bento Gonçalves. Ao chegar na piscina, custei a descobrir quem era o professor, pois foi uma surpresa vê-lo dentro d’água. Nas duas escolas em que fiz natação em Chapecó, onde morei por cinco anos, isso só acontece na piscina das crianças.

Além de se molhar, o professor João, da Natsport, ensina a nadar, o que foi uma surpresa para mim. Em Chapecó pedi para as quatro professoras que tive ao longo de quatro anos para que corrigissem minha postura. Elas diziam que eu já nadava bem. Na primeira escola em que fiz aulas, disse que queria aprender peito e borboleta. Não dava. Como a escola enfatizava uma modalidade a cada três meses, precisava esperar chegar a época da modalidade. Na segunda escola ensinaram as duas modalidades e, em duas semanas, consideraram os meus deslocamentos meio tortos como o máximo que eu poderia chegar sob orientação. Aprenderia por conta própria a partir dali. Então solicitei aprender saída e chegada. Para conseguir algumas aulas, precisava lembrar a professora a cada vez.

Ontem tudo mudou. Lembrei-me das aulas na ESEF na UFRGS e da ACM em Porto Alegre. Professor orientando e ensinando. Fiz duas chegadas na piscina de estilo crawl, e o professor João já corrigiu o alongamento do braço (para percorrer mais distância com menos braçadas), a postura da cabeça na hora de respirar, além de explicar o porquê desses aperfeiçoamentos. Antes disso, uma conversa de apresentação sobre por que eu fazia natação e para que serve nadar. Segundo ele, não serve para emagrecer, por exemplo.

A cada aula em Chapecó eu me perguntava sobre a necessidade de um professor de educação física para listar uma seqüência de nados, que era a mesma para todos e que nunca consegui cumprir. Ontem, enquanto nadava, vendo que uma aula pode ser bem diferente, fiquei me perguntando sobre métodos de ensino e aprendizagem. Sempre tive a sensação de que em Chapecó as pessoas resistiam muito à crítica. Eu percebia um orgulho relacionado à autoproteção. Quando fui aluna de um curso de especialização, um professor da Unicamp foi bastante sincero quanto a algumas mediocridades da turma, como, por exemplo, utilizar livro didático como referência de conhecimento. Foi uma briga feia. Os alunos não admitiam ser criticados daquela forma. O “nome” do professor não justificava tamanha afronta. De forma geral, nas minhas aulas percebia que os alunos tinham muito medo de “não dar conta” e se protegiam de forma agressiva, bem parecida à forma como reagiram com o professor da especialização.

Também fiz aulas particulares de inglês e espanhol. As professoras praticamente não corrigiam minha pronúncia, pois a idéia era não me intimidar para falar, ainda que eu pedisse a correção. Esta generalização sobre ensino e crítica em Chapecó tem algum sentido e há tempos penso sobre o assunto, mas o que importa mesmo é que agora tenho um professor de natação que entra na água para ensinar e estou bem feliz.

Evasão escolar por promoção

Certa vez participei de um conselho de classe numa escola municipal de Gravataí/RS, em que se decidiu a aprovação de alunos da oitava série para que saíssem da escola e parassem de incomodar.

A escola, bem pequena, tinha alunos de pré-escola à oitava série. Os problemas de disciplina eram relativamente graves, com alunos que “não queriam nada com nada”, como é comum nas escolas públicas. Mal sabiam ler e escrever, não tinham conhecimento formal dos conteúdos trabalhados nas disciplinas, mas iam à aula regularmente, principalmente para incomodar os pequenos e desafiar os professores. Neste conselho de classe, discutiu-se a necessidade de aprová-los para que fossem “incomodar em outro lugar”. Não era relevante para os professores a idéia de que provavelmente parariam de estudar e que, caso continuassem com o ensino médio, teriam dificuldade de acompanhar as aulas, mesmo numa escola pública que tivesse o sistema de ensino do fazer de conta que se ensina para quem não quer aprender.

Este é um dos piores tipos de evasão a que os alunos da escola pública brasileira estão sujeitos. É lhes dado um diploma para que se retirem da escola e de preferência não voltem mais, nem para o nível seguinte. Com o diploma de ensino fundamental na mão, estes alunos teriam a opção de enfrentar o mercado de trabalho, já que estariam “formados”, ingressar no ensino médio ou fazer um curso supletivo. No ensino médio, sendo mais exigidos, em uma escola maior, a tendência é que se perdessem no caminho; para o supletivo teriam que esperar completar 18 anos.
Poucas portas se abrem aos alunos expulsos da escola por “mérito”. Fecha-se a porta da escola em que estavam e de outras escolas onde poderiam ainda estudar no ensino fundamental caso quisessem. É bem possível que não faça diferença a falta de oportunidade de continuar estudando no ensino fundamental e a chance de aprender a ler, escrever e calcular pelo menos, mas até que ponto a escola tem este direito de evadi-los?

Costumo citar o que ocorreu neste conselho de classe como um exemplo de evasão por promoção. Ontem li na Folha de São Paulo a notícia de um caso semelhante. A diferença é que a aluna promovida reclamou. Ela reivindica o direito de continuar estudado no ensino fundamental, já que reconhece que sabe muito pouco, mas a escola teima em expulsá-la, fazendo que progrida pelo tempo despendido na sala de aula e não pelo que aprendeu.

Leia a notícia Aluna luta para repetir de ano.

Tudo novo

Volto a ser professora depois de um curto estágio como revisora integral de textos em uma maravilhosa ilha.

Neste novo endereço o mesmo estilo do fabinca.tzal.org e, espero, em breve um design tão bonito quanto o outro.