Textos apócrifos


Os alunos têm me adicionado no Orkut nos últimos dias. Pior pra eles, que, além de ter de aguentar a professora chata na sala de aula ainda a têm como amiga virtual. Menos mal que só freqüento o Orkut para discutir em fóruns de algumas comunidades, para pesquisar materiais mais bem filtrados do que em uma busca no Google e para responder recados (cultivados com muito carinho, aliás). Muito raramente uso o Orkut para especular a vida das pessoas; bem infrequentemente para olhar fotos.

Ao olhar o perfil de um dos alunos que me adicionou, encontrei a seguinte frase atribuída a Machado de Assis:

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.

Dei uma de chata e chamei a atenção para a autoria da frase. Sobre este tipo de chatice, encontrei na comunidade “Eu abomino textos apócrifos”, no Orkut, o depoimento de Emílio:

Desabafo

[...]


Não é de hoje que eu vejo a Jane Araújo, a Rosângela Aliberti e tantos outros serem chamados de chatos quando corrigem as autorias em outras comunidades. Pra mim, esse tipo de reação é o exemplo perfeito de burrice. A pessoa comete um erro e reclama de quem corrige. Em vez de aproveitar a chance de se instruir, ainda reclama.

Sim, nós somos chatos. Chatos como o guarda de trânsito que apita quando o motorista comete uma infração. Chatos como o pessoal na rua que começa a gritar quando algum carro entra na contramão. Chatos como a multidão que fica gritando "pega ladrão" quando alguém é roubado. Chato como a loja, o banco ou administradora de cartão de crédito que fica ligando quando deixamos de pagar alguma conta. Chatos como a professora que devolve a prova com nota baixa quando as respostas estão erradas. Chato como o caixa que reclama quando o valor pago está a menor. Chato como o cliente que reclama quando recebe troco errado.

Agora eu imagino o que aconteceria se eu entrasse na casa de algum desses analfabetos literários por opção própria e resolvesse sair levando algo da casa deles. Um vaso, por exemplo.

- Ei, esse vaso é meu!
- Não importa se é seu ou não. Achei bonito.
- Ei, você não entendeu? Eu comprei esse vaso! Ele me pertence!
- Meu objetivo não é saber quem comprou o vaso ou a quem pertence. O que interessa é que vai ficar bem na minha sala.
- Mas isso é roubo! Você está levando o meu vaso!
- Como vou saber se é mesmo seu? Estava em cima da mesa. Você tem registro de propriedade dele?
- Estou afirmando que é meu.
- Mas vai ficar bonito na minha casa. Minha esposa vai adorar.
- É meu!
- Puxa, mas você é chata, hein!

Ontem em um programa de TV sobre inclusão social de deficientes (muito bom por sinal), uma profissional de recursos humanos cita um poema como sendo de Mario Quintana:

VIVER PRIMEIRO

Sentir primeiro, pensar depois.

Perdoar primeiro, julgar depois.

Amar primeiro, educar depois.

Esquecer primeiro, aprender depois.

Libertar primeiro, ensinar depois.

Alimentar primeiro, cantar depois.

Possuir primeiro, contemplar depois.

Agir primeiro, rezar depois.

Navegar primeiro, aportar depois.

Viver primeiro, morrer depois.

O poema é utilizado nos cursos que ela ministra em inúmeras empresas do Rio Grande do Sul. Não é preciso ter lido muito de Mario Quintana, um poeta tão acessível aos gaúchos, para ver que este texto nada tem a ver com o que ele escreveu. É de outro escritor gaúcho, Paulo Roberto do Carmo.

Será que ninguém percebe a atribuição equivocada da autoria? O meu aluno disse que a frase de seu perfil estava um texto distribuído por uma estagiária da escola, cuja autoria era atribuída a Machado de Assis. Por que ele duvidaria?

Nunca esqueci de um comentário feito pela minha vó quando eu tinha uns 5 ou 6 anos de idade:

- Tudo isso que eles dizem na TV é mentira.

Ela se referia especialmente às propagandas. Fiquei muito impressionada com a possibilidade de as pessoas mentirem descaradamente na televisão e de que isso fosse aceitável. Minha vó era analfabeta, mas sabia que o que é veiculado na TV nem sempre é verdade e, se soubesse ler, também desconfiaria de que nem tudo que está escrito é verdadeiro. Talvez suspeitasse das assinaturas de textos apócrifos que circulam por aí.

9 comentários:

  1. Meus alunos do primeiro ano, da Info, vão apresentar amanhã trabalhos sobre textos apócrifos. Depois conto.

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  2. Fabiana, obrigado por visitar o meu blog. Esse trecho do Orkut que você transcreveu depois foi publicado no blog da Rosângela Aliberti com algumas revisões e acréscimos sob o título "Quem são os chatos". Ela pediu para publicar e eu pedi para fazer um "arremate" no texto.

    Interessante o que você citou da sua mãe. Porque algumas pessoas têm dificuldade de diferenciar a Internet da imprensa. A imprensa até erra, mas assume a responsabilidade pelo que divulga e pode eventualmente pagar por seus erros. Já a Internet é um campo aberto, qualquer um publica o que quiser, onde quiser.

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  3. Não tinha visto que o Emílio do Orkut e do blog eram os mesmos :-)

    Fui parar no teu blog ontem porque estava tentando descobrir se o texto "Armário" era do Luis Fernando Verissimo mesmo.

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  4. O que eu temia aconteceu: um grupo apresentou um texto apócrifo crendo que fosse realmente do autor.

    O trabalho era encontrar um texto apócrifo e, então, conhecer melhor o autor ao qual o texto foi atribuído, mostrando as diferenças entre o texto apócrifo e textos verdadeiros do autor.

    Este grupo apresentou um texto apócrifo do Arnaldo Jabor e citou outro texto apócrifo como de verdadeira autoria...

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  5. Pois é. Eu noto um fenômeno curioso: tem gente que sabe da existência dos apócrifos, mas não tem ideia da amplitude do problema. Acha que são casos isolados. Já vi num mesmo fórum alguém informar que tal texto não era de Luis Fernando Verissimo, mas postar outro que também não era dele como sendo.

    A propósito, aquele texto sobre amizade costuma ser atribuído a Vinicius de Moraes. Mas seu verdadeiro autor é o cronista gaúcho Paulo Sant'ana.

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  6. Olá Fabiana: essa praga de citar textos como sendo de um escritor ou sendo de si próprio é um problema de dificil solução nas escolas. Os alunos em geral não gostam de escrever e então baixam textos da internet e entregam ao professor como sendo seus. Algumas vezes é moleza perceber a cópia, como alguns alunos que copiaram um texto de campanha de um deputado. Quando o professor propõe que eles escrevam para uma revista(Sou mais eu) tendo a possibildade de até ganhar algum dinheiro caso o texto seja selecionado, eles se negam a participar dessa atividade. Eu digo que é o professor que precisa praticar os idiomas, visto que diploma não faz mágica.por isso sempre estou recebendo hospedes estrangeiros, lendo e escrevendo para evitar contrangimentos como tive oportunidade de observar nas salas de aula quando era estudante.

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  7. Oi Fabiana,
    É bom saber que existem "chatos" que querem apenas a verdade. A última praga é algo chamado "A Vergonha" atribuido a Luiz Fernando Veríssimo. É bom saber que faço parte da turma dos chatos que procura corrigir os desavisados.
    O próprio Luiz Fernando Veríssimo deu uma de "chato" e reclamou na coluna "Outro você" em O Globo e Zero Hora de 04/04/2010. Pessoas como você, Emílio Pacheco, Rosangela Aliberti, Vanessa Lamperti, Cora Ronai, Betty Vidigal e outros.
    Fazer parte deste grupo de "chatos" me orgulha.
    Um abraço,
    Simone

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  8. Adorei a dica do texto do Verissimo, Sinome. Recém-saído do forno...

    Felizmente ainda não recebi a praga "A Vergonha".

    Não me manda :-)

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