Não devem nada


- Mas certamente depois da leitura nós deveremos fazer algum trabalho sobre o livro?

- Não. Vou ler o conto para vocês de graça. Vocês não me devem nenhum dinheiro nem nenhuma outra coisa.

Pela enésima vez estou lendo o conto O gato negro em voz alta para os alunos. O objetivo é que tenham uma experiência de leitura que não implique um compromisso posterior de realizar um trabalho ou atividade. Ler por ler e considerar a leitura como ela mesma válida.

Foto de Pedro Simões7


Textos apócrifos


Os alunos têm me adicionado no Orkut nos últimos dias. Pior pra eles, que, além de ter de aguentar a professora chata na sala de aula ainda a têm como amiga virtual. Menos mal que só freqüento o Orkut para discutir em fóruns de algumas comunidades, para pesquisar materiais mais bem filtrados do que em uma busca no Google e para responder recados (cultivados com muito carinho, aliás). Muito raramente uso o Orkut para especular a vida das pessoas; bem infrequentemente para olhar fotos.

Ao olhar o perfil de um dos alunos que me adicionou, encontrei a seguinte frase atribuída a Machado de Assis:

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.

Dei uma de chata e chamei a atenção para a autoria da frase. Sobre este tipo de chatice, encontrei na comunidade “Eu abomino textos apócrifos”, no Orkut, o depoimento de Emílio:

Desabafo

[...]


Não é de hoje que eu vejo a Jane Araújo, a Rosângela Aliberti e tantos outros serem chamados de chatos quando corrigem as autorias em outras comunidades. Pra mim, esse tipo de reação é o exemplo perfeito de burrice. A pessoa comete um erro e reclama de quem corrige. Em vez de aproveitar a chance de se instruir, ainda reclama.

Sim, nós somos chatos. Chatos como o guarda de trânsito que apita quando o motorista comete uma infração. Chatos como o pessoal na rua que começa a gritar quando algum carro entra na contramão. Chatos como a multidão que fica gritando "pega ladrão" quando alguém é roubado. Chato como a loja, o banco ou administradora de cartão de crédito que fica ligando quando deixamos de pagar alguma conta. Chatos como a professora que devolve a prova com nota baixa quando as respostas estão erradas. Chato como o caixa que reclama quando o valor pago está a menor. Chato como o cliente que reclama quando recebe troco errado.

Agora eu imagino o que aconteceria se eu entrasse na casa de algum desses analfabetos literários por opção própria e resolvesse sair levando algo da casa deles. Um vaso, por exemplo.

- Ei, esse vaso é meu!
- Não importa se é seu ou não. Achei bonito.
- Ei, você não entendeu? Eu comprei esse vaso! Ele me pertence!
- Meu objetivo não é saber quem comprou o vaso ou a quem pertence. O que interessa é que vai ficar bem na minha sala.
- Mas isso é roubo! Você está levando o meu vaso!
- Como vou saber se é mesmo seu? Estava em cima da mesa. Você tem registro de propriedade dele?
- Estou afirmando que é meu.
- Mas vai ficar bonito na minha casa. Minha esposa vai adorar.
- É meu!
- Puxa, mas você é chata, hein!

Ontem em um programa de TV sobre inclusão social de deficientes (muito bom por sinal), uma profissional de recursos humanos cita um poema como sendo de Mario Quintana:

VIVER PRIMEIRO

Sentir primeiro, pensar depois.

Perdoar primeiro, julgar depois.

Amar primeiro, educar depois.

Esquecer primeiro, aprender depois.

Libertar primeiro, ensinar depois.

Alimentar primeiro, cantar depois.

Possuir primeiro, contemplar depois.

Agir primeiro, rezar depois.

Navegar primeiro, aportar depois.

Viver primeiro, morrer depois.

O poema é utilizado nos cursos que ela ministra em inúmeras empresas do Rio Grande do Sul. Não é preciso ter lido muito de Mario Quintana, um poeta tão acessível aos gaúchos, para ver que este texto nada tem a ver com o que ele escreveu. É de outro escritor gaúcho, Paulo Roberto do Carmo.

Será que ninguém percebe a atribuição equivocada da autoria? O meu aluno disse que a frase de seu perfil estava um texto distribuído por uma estagiária da escola, cuja autoria era atribuída a Machado de Assis. Por que ele duvidaria?

Nunca esqueci de um comentário feito pela minha vó quando eu tinha uns 5 ou 6 anos de idade:

- Tudo isso que eles dizem na TV é mentira.

Ela se referia especialmente às propagandas. Fiquei muito impressionada com a possibilidade de as pessoas mentirem descaradamente na televisão e de que isso fosse aceitável. Minha vó era analfabeta, mas sabia que o que é veiculado na TV nem sempre é verdade e, se soubesse ler, também desconfiaria de que nem tudo que está escrito é verdadeiro. Talvez suspeitasse das assinaturas de textos apócrifos que circulam por aí.

O gato e o escuro

"- Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?"



Entre as leituras de hoje, O gato e o escuro, de Mia Couto.

Ilustração de Danuta Wojciechowska.